A atrofia cerebral na esclerose múltipla

A atrofia cerebral na esclerose múltipla

A atrofia cerebral na esclerose múltipla (EM) é um tema cada vez mais abordado, especialmente pelos especialistas. Sabemos hoje que a doença pode afetar o cérebro ao aumentar a velocidade a que ocorre a atrofia cerebral. 

Cada vez mais a investigação realizada tem demonstrado que a atrofia cerebral desempenha um papel importante na EM. É algo observado desde o início da EM e que está presente durante todo o curso da doença. Diversos estudos demonstraram que o aumento da atrofia cerebral está relacionado com o agravamento dos sintomas, como o aumento da disfunção cognitiva e da incapacidade física. Hoje sabe-se que quando a atrofia cerebral ocorre precocemente na EM pode ser um indicador de como a incapacidade pode progredir posteriormente.

Afinal o que é a atrofia cerebral?

A atrofia cerebral é o termo usado para descrever a perda de tecido cerebral que ocorre gradualmente em todas as pessoas como parte natural do processo de envelhecimento. Este processo também pode ser chamado de perda de volume cerebral. Embora seja um processo natural, os danos causados pela EM podem acelerar este processo.

Atrofia Cerebral

A razão pela qual este processo é mais acelerado nas pessoas que vivem com EM não é completamente conhecida e pode ser devida a vários motivos. Uma das explicações baseia-se na inflamação causada pela EM que destrói a mielina. A mielina é uma camada protetora dos neurónios que, quando destruída pelas células do sistema imunitário, torna estas células disfuncionais. Este dano no tecido cerebral pode resultar em lesões, mas também pode evoluir e resultar na morte das células que se traduz em perda de tecido que pode contribuir para a atrofia cerebral. O impacto de cada um destes processos na atrofia cerebral pode depender de vários fatores, como o estádio da doença e a região do cérebro afetada.

Hoje sabemos que a atrofia cerebral tem um grande impacto nos sintomas da EM. Passemos em revisão alguns dos principais tópicos que hoje conhecemos sobre a atrofia cerebral.

•    A atrofia cerebral está relacionada com vários sintomas da EM tais como alterações da marcha, da visão, do equilíbrio, da cognição ou da fala, por exemplo;

•    A relação entre a atrofia cerebral e os sintomas é mais comum do que parece. Mais de metade das pessoas que vivem com EM Surto-Remissão sentem que a sua capacidade física se deteriorou desde o diagnóstico, com impacto significativo nas tarefas diárias;

•     A atrofia cerebral é um fator de risco para a fadiga. Esta afeta cerca de 75% das pessoas que vivem com EM e parece estar associada à disfunção cognitiva, à incapacidade física, aos distúrbios psicológicos e aos problemas de sono;

•    A atrofia cerebral foi associada à disfunção cognitiva que inclui problemas como, por exemplo, na concentração, no pensamento, na memória, na atenção e na capacidade de resolver problemas. Mais de 50% das pessoas que vivem com EM Surto-Remissão têm dificuldades em concentrar-se, referem que a sua capacidade de processar informação diminuiu e admitem que os problemas de memória afetam o seu dia a dia. Além disso, mais de 45% dos doentes sente que tem dificuldade em tomar decisões;

•    O bem-estar emocional é afetado pela atrofia cerebral. Uma percentagem significativa das pessoas que vivem com EM sofre de depressão, mesmo quando comparada com pessoas que vivem com outras condições debilitantes.

•    A atrofia cerebral pode ter impacto nas relações pessoais e na vida quotidiana. As pessoas que vivem com EM e que têm sintomas como a fadiga, problemas cognitivos ou incapacidade física têm uma maior probabilidade de não conseguir emprego. Além disso, à medida que a incapacidade física vai progredindo, a proporção de pessoas desempregadas que vivem com EM aumenta significativamente. Quase um terço das pessoas que vivem com EM necessitam de assistência que, em 80% dos casos é dada pela família e amigos. 

Obter uma medição precisa da atrofia cerebral pode ser um processo muito complexo. As técnicas necessárias para obter uma análise rigorosa da atrofia cerebral precisam de ser altamente precisas e envolver análises complexas. Por esse motivo, é pouco provável que a análise da atrofia cerebral seja utilizada para avaliar a sua EM. No entanto, essa análise é utilizada em estudos que pretendem entender a própria doença.

Quando se avalia a atrofia cerebral recorre-se à ressonância magnética. Ainda que esta seja uma técnica utilizada pelos médicos para detetar a presença de lesões que aparecem como manchas brilhantes ou escuras no exame, quando é feita a análise da atrofia cerebral são usadas diferentes técnicas de ressonância magnética. Essas técnicas  permitem calcular o tamanho de diferentes áreas do cérebro e a variação do seu tamanho ao longo do tempo.

É natural que neurologista e/ou enfermeiro de EM considere as opções terapêuticas tendo em conta o controlo da atrofia cerebral. Existem várias terapêuticas modificadoras da doença (TMDs) que demonstraram reduzir a taxa de atrofia cerebral em doentes com EM. A atrofia cerebral pode ser algo a considerar quando se pensa na saúde global do cérebro.

Além disso, sabe-se hoje que o cérebro continua a mudar ao longo da vida. Em resposta a problemas como a EM o cérebro procura formas de compensar as lesões e de tentar manter as suas funções pelo que se diz que o cérebro tem neuroplasticidade. O que isto significa? Para responder à questão é preciso falar no conceito de reserva cognitiva.

O que é a reserva cognitiva?
A reserva cognitiva é a capacidade que o cérebro tem de se adaptar perante as lesões provocadas pela EM. Assim, duas pessoas podem ter o mesmo nível lesões cerebrais sem que sintam de igual forma os sintomas da doença: têm diferentes reservas cognitivas. Este conceito ajuda também a explicar porque é que uma pessoa pode ter lesões visíveis na ressonância magnética que não se traduzem em sintomas.

É possível aumentar a reserva cognitiva?
Sim. À luz do que hoje sabemos a reserva cognitiva pode ser aumentada e mantida, mantendo o cérebro saudável e ativo. A educação, a ocupação, o exercício, a interação social e os hobbies que estimulam o intelecto aumentam a reserva cognitiva ao estimularem os neurónios a manterem-se saudáveis e flexíveis. Por outro lado, problemas como a depressão que tendem a reduzir o nível de atividade de uma pessoa podem ser negativos para a manutenção da reserva cognitiva.

Assim, procure manter uma vida ativa e com desafios regulares tanto ao nível físico como intelectual.